Um olhar psicanalítico sobre a angústia do concursando.



Em minha experiência enquanto psicanalista, me deparei inúmeras vezes com sujeitos que vivenciavam o processo de estudar para concurso público, alguns já empregados, com família, outros ainda almejando o primeiro emprego e solteiros; diversos os contextos, contudo se unissem todos em um grupo terapêutico, provavelmente esse grupo se transformaria em um grande jogo de espelhos, em que todos se reconheceriam um nos outros.

Mas em que se assemelhariam? De pronto respondo: Na angústia, variando apenas as formas de sua expressão:medo, insegurança, preocupação excessiva, desanimo, sensações e sentimentos inomináveis, aperto no peito, arritmia, frio na barriga, nó na garganta, agitação, entre outros.

Facilmente nos reconhecemos nesse estado de angústia, mas do que se trata a angústia? Qual é a sua etiologia? Como podemos lidar com ela?

Pela perspectiva da filosofia, em geral, a angústia não se separa da condição humana, da dor do existir em razão das incertezas, das inseguranças diante das escolhas e decisões necessárias, das perdas e da finitude.

Para o senso comum a angústia está inserida no mesmo campo semântico da ansiedade, do pânico, em virtude de certa contaminação da compreensão psiquiátrica do termo, que aborda a angústia somente a partir de um diagnostico descritivo em que se observa os sintomas e o enquadra em um determinado transtorno, como por exemplo nesse caso, dentro dos transtornos de ansiedade: transtornos de pânico e de ansiedade generalizada.

A psicanálise, com sua visão mais abrangente e privilegiada, em razão de sua experiencia singular com o sujeito abordando não somente a história de seu sintoma, mas também a história do paciente, consegue entender o fenômeno da angústia como um dos aspectos essenciais para a compreensão do adoecimento psíquico.

Inicialmente, Freud também associou a angústia com a ansiedade e o medo, entretanto de uma forma inovadora, compreendendo-acomoum conjunto de sensações relacionada ao excesso de energia não canalizada ou elaborada psiquicamente, bem como uma reação automática diante da dificuldade de o aparelho psíquico lidar com um perigo real ou imaginário.

Já Lacan em sua releitura de Freud observa um aspecto essencial da angústia – sua relação com a falta. Todos sabemos que a falta, a perda de algo ou de alguém, da mesma forma que a frustração diante de algonão conquistado, se colocam como uma causa comum para angústia, contudo Lacan inova ao associar a angústia com a falta da falta, haja vista que a falta é fundamental para manter acesso ao desejo, força propulsora da ação humana. Desse modo, em uma sociedade em que se buscar tamponar a qualquer custo nossos vazios, sejam existenciais, reais ou fantasiosos, por meio do consumo, dos prazeres imediatos, das compulsões, ou qualquer outra forma, a angústia pode se precipitar em razão do excesso de alternativas que encontramos ou pela sua busca desenfreada. Assim, não raro encontramos sujeitos angustiados não pela falta, mas pelo excesso.

Qualquer que seja a linha ou autor, em psicanalise, vamos nos deparar com a ideia de que a angustia é constitucional do ser humano, ela nos estrutura desde de o momento em que nascemos, porque desde o parto começamos a perder algo e a ter que lidar com as frustrações adjacentes: primeiro a vida uterina, depois o seio materno, o núcleo familiar quando somos obrigado a nos jogar no mundo, a inocência e as brincadeiras da infância, o primeiro namorado ou namorada, e assim por diante, e todas essas vivências de perdas vão constituem nossa subjetividade, nossa forma de ver, compreender e sentir nosso mundo externo e interno e, consequentemente, nossa capacidade de lidar com a frustração, nos tornando pessoas mais ou menos resilientes, ou até mesmo, absolutamente intolerantes às contingências da vida, conforme ocorre em muitos dos transtornos mentais ou psicoafetivas.Trazendo essas perspectivas psicanalítica para o contexto do concursando, há muito a ser abordado. Primeiramente, tomamos a angústia como excesso de tensão não canalizada. O concursando acumula muita tensão mental, no sentido do esforço cognitivo, quanto em razão do desgaste emocional trazido pelas incertezas desse momento; assim, a fim de trabalhar esse aspecto econômico da angústia, no sentido das tensões acumuladas, se coloca fundamental para o estudante, a realização de atividades físicas que possibilitem o escoamento daangústia pela via atividade motora, seja qual for a atividade, desde que sirva a esse propósito.Mas não adianta nada realizar atividades que tragam mais tensão ao organismo, o objetivo aqui é distensionar por meio do movimento do corpo. Ainda sob esse aspecto econômico, vale pensar em atividades prazerosas que fujam totalmente a dinâmica dos estudos: o ócio criativo, maratonar uma serie, ler um livro que nada tenha a ver com os estudos, praticar um hobby, ou seja, tudo aquilo que atenda o propósito de dar prazer à mente e ao corpo.

Sob o ponto de vista da falta, da perda, ou seja, das frustração que envolvem o trajeto de um postulante à vaga de um concurso público, percebi que a maioria de meus pacientes concursando encontravam dificuldades nos seguintes aspectos;

A) A perspectiva do tempo: é comum encontra concursandos angustiados com a ideia de que perdeu muito tempo ou que muito tempo há que se passar até conseguir se aprovado. Nesse sentido, aangústia está marcada pelo arrependimento, pela culpa de ter perdido tempo não estudando, estudando pouco ou errado. Identificamos, também,aquelesintensamente angustiados pelo tempo necessário de estudo para se passar em um concurso.

No primeiro caso, observo que a culpa e o arrependimento, são amarras que nos prendem ao passado, ou seja, uma forma clara de autossabotagem - clichê muito utilizado no meio -, mas que na verdade pode ser uma forma de mecanismo de defesa diante da angústia provocada pelo perigo imaginário “de não passar”.Nesse caso, a dinâmica psíquica é mais ou menos assim: em vez de encararas dificuldades reais que envolve se dedicar para uma prova de concurso público, e assumir as responsabilidades e consequências desse processo, como por exemplo a reprovação, o indivíduo se defende com angustias imaginárias (pensamentos/fantasias)que o impossibilitam de estudar ou de fazer a prova, chamo esse movimento de angustia da angustia, ou seja, em nossa realidade psíquica criamos uma angustia imaginária para não encarar a angustia real.

Outra questão relacionada ao tempo, se trata realmente de pura percepção, para quem visualiza o tempo em direção ao futuro na maioria das vezes, se angustiam com a espera, semelhante a pessoa que ao ler um livro gasta algum tempo contanto as páginas que faltam, superdimensionam a demora, pensam em tudo que deixarão de fazer, o que leva muitas vezes à desistência de enfrentar o processo de estudo. Vale observar, que para as pessoas que focam no processo, no aqui e agora, o tempo é pouco percebido, em algum momento a aprovação chega, olha-se para trás, e percebe-se quão rápido passou e sente-se a satisfação pelo trabalho realizado.


B) A reprovação – pensar na possibilidade de não lograr êxito significa antecipar a frustração e todos os sentimentos inerentes: desanimo, sintomas de ansiedade e até mesmo a desistência. A respeito dessa contingência, vale observar, que a reprovação faz parte do processo e constrói os alicerces para o êxito, contudo, em razão de um pensamento imediatista e, até mesmo, por questões de necessidade, as pessoas apostam todas suas fichas em uma prova específica, carregando para o dia “D” todo o peso da obrigação e com ela as respostas fisiológicas da ansiedade, posto que a reprovação acaba sendo um perigo do qual o organismo tenta se defender, ocasionando em muitas pessoas reações sobre as quais não tem controle, se paralisam e a reprovação agora se torna certa. É importante lembrar que a ansiedade é uma força que nos ajuda em situações que precisamos de mais energia e foco, contudo, seu excesso se torna disfuncional, paralisando o indivíduo.

C) Urgência Expectatante– quanto maior a expectativa diante de determinada prova, maior a angústiafacea uma possível reprovação. Normalmente passar em um concurso tem diversos significados, diversos ganhos secundários, os quais muitas vezes nem são identificados pelo estudante. Para alguns, tomar posse em um concurso pode ter significados ou ganhos bem práticos, como segurança financeira e estabilidade profissional, bem como ganhar o reconhecimento da família, portanto saber identificar o quenos motiva é essencial para o enfrentamento da angústia.

C) Excesso de fantasias –Para a psicanálise, nossas fantasias são como uma lente pela qual enxergamos o mundo, então ela media nossa relação com os objetos e com o outro. Fantasias positivas sustentam nossos desejos, nos ajudando a estabelecer nossos objetivos e lutar por eles; no entanto seu excesso pode acarretar pouco investimento e, em casos extremos, a inercia. Uma história interessante sobre o excesso desse tipo de fantasia é de uma pessoa que conheço que ao ficar sabendo de um concurso para a Polícia Federal, inflou seu imaginário com pensamentos de que iria passar, depois trabalharia na fronteira e, em seguida, voltaria para Brasília, se casaria, teria filhos e uma vida com mais conforto. Na vida real, fora de seu devaneio, essa pessoa não chegou se quer a se inscrever no concurso.Já as fantasias negativas, falam por si só, não tem em nada a contribuir, as pessoas mais pessimistas e melancólicas ou com algum transtorno de humor dificilmente conseguirão encontrar forças para investir em seus sonhos ou objetivos.Recorrentemente, escuto concursandos pessimistas com a narrativa de que não fará determinado concurso porque com certeza as vagas estarão comprometidas com os “peixes” ou porque não tem capacidade de passar em razão do nível do concurso ser muito alto. Nesse aspecto vale aquele velho clichê, nem otimista, tampouco pessimista, mas sim realista.

Simplificando,podemos pensar o ser humano angustiado como uma represa cheia em que a água não encontra escoamento por nenhuma comporta. Se algo não for feito para dar vazão ao excesso, o transbordamento é certo, mas também, pode ocorrer rachamentos em sua estrutura ou, até mesmo, a ruptura. Nessa metáfora associo o transbordamento aos sintomas mais sutis da ansiedade e da depressão, tais como, palpitações, sudorese, dor de barriga, insônia, tristeza, falta de energia, entre outros; as rachaduras aos transtornos psicoafetivos em que os sintomas se tornam mais intensos e crônicos, como os transtornos de ansiedade generalizada e de humor; por fim, a ruptura, em que o indivíduo se desliga da realidade, psicotiza, enlouquece ou se suicida, diante de uma angustiainsuportável.

Vale observar, que não é raro encontrar pessoas que em seguida a aprovação, depois que tomam posse, momento que deveria ser de pura satisfação, são acometidos por profunda depressão, delírios persecutórios, crise de pânico entre outros problemas mais graves, em alguns caso chegando ao ponto de pedir exoneração do cargo. Logicamente, não podemos atribuir somente ao fato de ter sido aprovado, mas uma avaliação mais cuidadosa pode encontrar uma parcela das causas na extrema angústia que vivenciaram no percurso até a aprovação, além de uma decepção muito grande quando se depara com uma realidade profissional muito distante da que idealizou.

Por fim, quero deixar algumas dicas para aqueles que vivenciam as angústias do concursando:

1) Saiba muito bem o que deseja, que concurso quer realmente fazer, que tipo de atividade realmente é capaz de realizar no dia a dia, o que pode trazer satisfação e não somente pensar na estabilidade, ou no aspecto financeiro. Se preciso for faça um teste vocacional e sempre pesquise sobre a realidade daquilo que busca;

2) Tenham um plano “B”: Se possível for busque uma alternativa ao concurso, outra profissão se for o caso; se preparem para uma possível demora na aprovação ou para a reprovação. O plano “B” ajuda a aliviar a pressão, a tirar o peso da obrigação;

3) Não pensem no curto prazo, a aprovação é uma construção em que as bases do conhecimento devem estar bem edificadas. Além do mais, quanto menos tempo se tem, mais cobrança se faz, mais desgastes é necessário, mais peso se leva para a prova

4) Torne esse processo o mais prazeroso possível para bem da sua saúde mental. Essa é uma tarefa difícil, mas possível na medida em consigamos extrair motivações intrínsecas.

5) Planeje sua grade de estudo, quando possível, inserindo momentos prazerosos, atividade física, não esquecendo de manter uma alimentação saudável, os 3 melhores tônicos para a mente e o corpo.

6) Pisem no Freio quando se sentirem sobrecarregados, desmotivados, sem energia. Escutem o corpo, ele sempre avisa quando algo não está funcionando bem. Reflitam e se preciso procurem ajuda, pois a angústia age silenciosamenteacarretando o adoecimento psíquico.


Alexandre Roberto

Psicólogo/psicanalista

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